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ColunistasPedro Fagundes de Borba

O final da vida de Akaki Akakievitch

13/10/2019 - Sorocaba - SP

     Bachmatchkin, também chamado Akaki Akakievitch, era o conselheiro titular de um ministério do qual o narrador se omitiu de contar, por saber que gente das repartições e da esfera pública acha que, quando pessoalmente ofendido, a sociedade inteira também é. Ficava em Petersburgo. Era fora das lembranças quando havia entrado para a repartição. Passava os dias fazendo cópias de documentos, via naquilo prazer particular. Por ter hábitos inquebráveis, os outros funcionários lhe implicavam e, não raramente, era agredido. Respondia perguntando o que havia feito a eles. Usava já havia anos o mesmo capote; e o casaco surrado estava já praticamente sem forro e o pano transparente. 

     Vendo aquilo assim, resolveu levar para o conserto de Petrovich, alfaiate que já conhecia. Queria a todo custo que remendasse, o que ele negava, dizia não ter como. Após muito tentar o contrário, Bachmatchkin entende que precisará de um novo. Faz negociatas pelo preço e, depois de alguns eventos, o casaco é feito e Akaki fica feliz. No outro dia, anda mais atento ao ambiente no caminho do serviço. Ao outro dia na repartição, todos reparam e lhe ficam bastante mais simpáticos. Foi convidado para uma festa, andou por um bairro mais rico, por onde nunca passava e lá , rapidamente foi esquecido para jogos de uíste, após lisonjeiros elogios. Mergulhou num estado de idiotia. Ao ir embora, ainda impressionado com o casaco, parou em um beco, aonde foi intimidado e roubado, levou chute nos rins e perdeu a consciência, não tendo mais aquilo. 

     Ao falar com um guarda, correndo e berrando a plenos pulmões, este lhe diz para falar com o comissário. Correndo para a casa que alugava de uma senhora, ela lhe diz para evitar o do bairro, falar com o comissário do quarteirão. Quando fez isto, no dia seguinte, foi questionado porque voltava para casa tão tarde. Não foi para a repartição aquele dia. No outro, quando lá estava um colega, movido por um sentimento de piedade, lhe disse para falar com o "personagem influente", da repartição. Ninguém mais era além de um funcionário comum, chefe daquele lugar sem importância, que, de tanto falar e imitar, acabou sendo assim considerado. Até que passou a acreditar também. Não atende, e, arrogantemente, pergunta se Akaki sabia com quem falava; posteriormente se arrependeria disto. Bachmatchkin adoece no quarto e morre.

     Alguns dias depois, ao pedir que retornasse ao trabalho, a repartição descobriu sobre sua morte. Foi substituído no dia seguinte. Surgiu então, na cidade de Petersburgo, a lenda de que, na ponte Kalinkine, um espectro que aparecia querendo recuperar um capote. Vindo de todas as partes. A polícia foi atrás. Chegou um guarda a agarrar o morto pela gola, quando este tentava roubar o capote de um músico. Pediu ajuda a dois colegas. Tentou pegar rapé do bolso. Ao cheirar o pó do ar, o morto deu um espirro tão forte que cegou os olhos dos guardas. Tornou-se coletivo o medo e também apareceram mortos em outros lugares. Uma noite o personagem importante sentiu uma mão lhe pegando pela gola, enquanto jantava com uma mulher por quem nutria sentimento verdadeiramente amigável. Reconheceu Akakievitch que loucamente lhe avançava por causa do capote. Largou e correu para casa. Mudou muitos de seus modos de ser. Sumiram os espectros. Apenas em alguns bairros surgiu, algumas vezes.

     Este enredo é o conto de Nikolai Gogol, "O capote". Akakievitch vivia uma vida de ações que, embora tivessem, sobre ele, certo fascínio, não lhe davam nenhum amor maior, algo que desse a sua vida certa iluminação superior, capaz de enxergar o todo incompleto típico daqueles fascinados em busca de entendimento. Simplesmente fazia funções, pelas quais nutria brando e raso fascínio, visto pelos colegas. Ao sentir a felicidade do casaco, teve um momento mais alto tornando-se vivo da maneira como aqueles que têm a sua vida e conhecimento limitados a relações vazias e exteriores com outros. Teve Akaki, nesta alegria forte, avivada algumas sensações que, possivelmente combinavam com as deles, às quais com o roubo do casaco, a impossibilidade de reavê-lo e a humilhação do personagem importante, mergulharam-lhe em um estado do qual só saiu para a morte. 

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